Penitencia Quaresmal - Padre Paulo Ricardo


quarta-feira, 26 de março de 2014

O Salvador que esperávamos silenciosamente

Como a história da América Latina foi moldada pelo testemunho fiel e ardoroso do Evangelho

Falar da colonização da América Latina, hoje, significa enfrentar um tabu. A visão que se tem desse fato, moldada por um método histórico materialista, que desconsidera que o homem possa lutar por algo maior e mais relevante do que a simples existência neste mundo, frequentemente põe as figuras dos navegantes ibéricos em maus lençóis. Falam-se deles, nas aulas de história, como “exploradores” e “carniceiros”, homens inescrupulosos e preocupados tão somente com a aquisição de riquezas e especiarias. Abordagens mais radicais chegam ao extremo de ignorar – ou fingir ignorar – qualquer possível bem-feitoria dos colonizadores: o “homem branco” da Europa vinha à América para trazer apenas pilhagem, massacre e destruição. 

Longe de fazer uma apologia dos homicídios contra os povos nativos da América – é fora de questão que o número dos indígenas diminuiu abissalmente com a chegada dos colonizadores europeus [1] –, reputar as viagens empreendidas por portugueses e espanhóis ao Novo Mundo como mero ato exploratório também não passa de uma grande mentira. Os primeiros testemunhos de quem haviam partido à conquista das terras além-mar eram relatos de pessoas de fé, que estavam preocupadas especialmente com a evangelização dos povos indígenas. 

Assim, quando Cristóvão Colombo chegou às Bahamas, sua primeira atitude foi a de “erguer uma cruz” no lugar e pedir a celebração de uma Missa: “ Os reis de Castela – disse-lhes Colombo [aos nativos] – enviaram-nos não para vos subjugar, mas para vos ensinar a verdadeira religião” [2].
O testamento de Isabel de Castela – a Rainha Católica, como ficou conhecida –, provava que era esse mesmo o anseio da Coroa Espanhola: “O nosso desejo absoluto (...) era fazer todos os esforços para levar os povos desses países a converter-se à nossa santa religião, enviar-lhes sacerdotes, religiosos, prelados e outras pessoas instruídas e tementes a Deus para os educar nas verdades da fé, dar-lhes o gosto e os costumes da vida cristã”. Para tal fim, Isabel pedia aos seus herdeiros que “não consentissem jamais que os índios sofressem algum dano nas suas pessoas ou nos seus bens, mas providenciassem para que fossem bem e convenientemente tratados...” [3]. 

Além disso, escreve o historiador Daniel-Rops, “desde o começo das grandes viagens, ou quase, os missionários embarcaram com destino aos países desconhecidos”. E tudo com o aval e a indicação de Roma: “Um dos méritos de Alexandre VI foi precisamente ter aconselhado com toda a firmeza os soberanos de Portugal e Espanha a cuidar de que se incluíssem testemunhas de Deus em todas as expedições” [4]. 

No entanto, o que muitos gostariam, contaminados pelo mito rousseauniano do “bom selvagem”, era que os colonizadores europeus sequer falassem de Cristo em solo americano. Contrapondo à “supremacia cristã” um condenável relativismo, a sua proposta era de que os missionários católicos, aqui chegando, dessem de ombros, traíssem miseravelmente a sua fé e se calassem com relação a todos os costumes locais – por mais absurdos que fossem alguns, como o canibalismo e os sacrifícios humanos. 

O que essas mesmas pessoas – às vezes, dentro da própria Igreja – não entendem é que o impulso missionário não é nem uma invenção caprichosa nem um abuso da liberdade alheia. Como preleciona Daniel-Rops: 


“O mesmo impulso que leva a Igreja a operar em Trento a indispensável reforma dos costumes e das instituições, o mesmo impulso que lança para as alturas da experiência espiritual um São Filipe Neri, um Santo Inácio de Loyola, uma Santa Teresa de Ávila, lança os corajosos pelos caminhos do mundo, para transmitir à humanidade inteira a mensagem de salvação. A Igreja inteira será impelida a enveredar por essa trilha, com o Papado à frente. A história missionária é inseparável da Reforma católica, da reorganização eclesiástica, da expansão mística: é a sua consequência lógica – num certo sentido até, a sua consagração” [5].

A missão é uma atividade que brota da própria essência da fé. Não à toa Santa Teresinha do Menino Jesus, que passou toda a sua vida reclusa, dizia estar “também pronta para voar para um outro campo de batalha, se o divino General me manifestar o desejo” [6]. Encaixa-se com justeza, nesse ponto, a figura do “sal da terra” e da “luz do mundo” [7]: os cristãos não devem esconder a sua fé – como alguém que “acende uma luz para colocá-la debaixo do alqueire” –, mas fazê-la brilhar diante dos homens. 

Ao mesmo tempo, quem aderiu uma vez a Cristo tem consciência de que não é possível segui-lo senão voluntariamente. Por isso, Santo Tomás explicava que os pagãos “de nenhuma maneira devem ser forçados a crer, já que crer é ato da vontade” [8]. As missões, então, não eram “legiões da intolerância”, destinadas a “obrigar” os povos nativos à conversão, como muitas vezes se pinta. Eram, ao contrário, na expressão de Daniel-Rops, verdadeiras “testemunhas de Deus”: chegaram à América para testemunhar aos índios o mistério da salvação, do qual ninguém deve ser excluído, sob nenhum pretexto. 

Ao questionar-se, em solo brasileiro, o que significou a aceitação da fé cristã para os povos da América Latina, o Papa Bento XVI lançou uma resposta ousada, mas contundente: 

“Para eles, significou conhecer e acolher Cristo, o Deus desconhecido que os seus antepassados, sem o saber, buscavam nas suas ricas tradições religiosas. Cristo era o Salvador que esperavam silenciosamente. Significou também ter recebido, com as águas do batismo, a vida divina que fez deles filhos de Deus por adoção; ter recebido, outrossim, o Espírito Santo que veio fecundar as suas culturas, purificando-as e desenvolvendo os numerosos germes e sementes que o Verbo encarnado tinha lançado nelas, orientando-as assim pelos caminhos do Evangelho. Com efeito, o anúncio de Jesus e do seu Evangelho não supôs, em qualquer momento, uma alienação das culturas pré-colombianas, nem foi uma imposição de uma cultura alheia. As culturas autênticas não estão encerradas em si mesmas, nem petrificadas num determinado ponto da história, mas estão abertas, mais ainda, buscam o encontro com outras culturas, esperam alcançar a universalidade no encontro e o diálogo com outras formas de vida e com os elementos que possam levar a uma nova síntese, em que se respeite sempre a diversidade das expressões e da sua realização cultural concreta” [9].
Quando a imprensa veiculou essas palavras, com o tom tendencioso que lhes é peculiar, muitas pessoas ficaram enfurecidas, escandalizadas com o fato de o Papa ter defendido as missões cristãs no Novo Mundo! Mas, não é isto o que prega a doutrina de Cristo, desde os seus primórdios: que “não há homem algum, não houve, nem haverá pelo qual ele não tenha sofrido” [10]? Não foi o próprio Jesus quem declarou ser “o caminho, a verdade e a vida”, não podendo ninguém ir ao Pai senão por Ele [11]?
Na verdade, a reação descoordenada dos secularistas diante da Cruz provém menos de uma sadia tolerância para com as pessoas do que de um relativismo, que intenta colocar em pé de igualdade quaisquer religiões e culturas que lhes apareçam à frente, custe o que custar. 

Ao contrário, “as culturas autênticas”, ensina o Papa, “não estão encerradas em si mesmas”. Ao mesmo tempo em que diz, nas entrelinhas, que existem culturas falsas – nomeadamente, as que degradam a própria natureza humana –, Bento XVI lembra que nenhuma cultura é tão rica que não possa aprender ou receber elementos de outras. Por meio dessa convicção, muitos missionários cristãos adaptaram o seu modo de evangelizar às culturas em que entraram. “Como notaram o gosto dos indígenas pela música, os jesuítas davam um grande lugar aos concertos e aos cânticos nas suas missões evangélicas” [12], exemplifica Daniel-Rops, traçando um quadro das famosas reduções jesuíticas. 

A história é testemunha: ao se aventurar em um mundo novo, os europeus não estavam simplesmente em busca de riquezas, mas também à busca de almas. O lema que São João Bosco consagraria no século XIX: “Da mihi animas, cetera tolle - Dai-me almas, ficai com o resto” pode, com razão, homenagear a vida dos missionários que, enfrentando o mar bravio e agitado, os tenebrosos monstros marinhos que se acreditava habitarem o oceano e a incerteza de chegar a um destino, cruzaram o Atlântico para levar aos povos latino-americanos a luz de Cristo. 

Passados quinhentos anos de tão grande empreendimento e olhando para figuras tão marcantes como José de Anchieta, Manuel da Nóbrega e António Vieira, não é possível que as almas verdadeiramente cristãs hesitem em dizer-lhes, com gratidão, um “muito obrigado”.
Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Vale lembrar, no entanto, que uma das razões preponderantes para uma mudança tão drástica de números foi as “novas doenças” trazidas pelos europeus, para os quais uma época como o século XVI poucos remédios eficazes poderia oferecer.
  2. Henri Daniel-Rops. A Igreja da Renascença e da Reforma (II). Trad. de Emérico da Gama. São Paulo: Quadrante, 1999. p. 275
  3. Ibidem, p. 275
  4. Ibidem, p. 276. O Papa Alexandre VI era famoso por manter uma vida pessoal pouco virtuosa, chegando a ter filhos antes e depois de sua eleição ao trono de Pedro.
  5. Ibidem, p. 267
  6. História de uma alma, Manuscrito C, 9r
  7. Mt 5, 13-16
  8. Suma Teológica, II-II, q. 10, a. 8
  9. Discurso na abertura da V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, 13 de maio de 2007
  10. Sínodo de Quiercy (853), cap. 4. Cf. Denzinger-Hünermann, n. 624
  11. Jo 14, 6
  12. Henri Daniel-Rops. A Igreja da Renascença e da Reforma (II). Trad. de Emérico da Gama. São Paulo: Quadrante, 1999. p. 299

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